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Adenomiose: Vale a pena ficar meses em menopausa antes de transferir o embrião?

  • Foto do escritor: SEMEAR fertilidade
    SEMEAR fertilidade
  • 8 de dez de 2025
  • 5 min de leitura

Receber um diagnóstico de adenomiose (quando o tecido do endométrio invade a musculatura do útero) durante o ultrassom costuma gerar muita ansiedade em quem está tentando engravidar. A resposta "padrão" de muitas clínicas tem sido prescrever agonistas de GnRH (aquelas injeções que induzem uma menopausa temporária) por meses antes de transferir um embrião congelado. A lógica parece boa: "secar" a doença para melhorar o terreno. Mas será que isso realmente aumenta as chances de ter um bebê no colo?



Uma revisão sistemática e metanálise publicada em 2025 (1) jogou um balde de água fria nessa prática rotineira. Ao analisar dados de quase 2.000 ciclos de transferência de embriões congelados (FET), os pesquisadores concluíram que o uso do agonista de GnRH não aumentou as taxas de nascidos vivos, nem as taxas de gravidez clínica, e também não reduziu o risco de aborto quando comparado ao preparo hormonal padrão.


Além disso, um estudo prospectivo anterior já havia mostrado que, em ciclos modernos com embriões geneticamente testados (euplóides) e transferências congeladas, a adenomiose assintomática diagnosticada por ultrassom 3D sequer atrapalhou os resultados (2). Ou seja, talvez estejamos tratando agressivamente algo que, em muitos casos, não é o vilão da história.


Considerando que esse tratamento traz custos financeiros, efeitos colaterais chatos (calores, alterações de humor) e adia o sonho da gravidez em meses, a ciência atual sugere que a prescrição automática desse bloqueio hormonal pode ser desnecessária para a maioria das pacientes.

 

Adenomiose no ultrassom: bloquear ou não? O que a ciência diz sobre o uso de agonistas de GnRH antes da transferência de embriões congelados


Se você fez um ultrassom transvaginal recente e ouviu a palavra "adenomiose", é provável que tenha corrido para o Google e encontrado um cenário de filme de terror sobre infertilidade. Em minha experiência na SEMEAR fertilidade, adenomiose é um tema que gera muita preocupação e confusão entre as pacientes. A adenomiose é definida por ser a condição onde o tecido que deveria revestir a camada interna do útero (o endométrio) resolve crescer no meio da musculatura uterina.


Na medicina reprodutiva, existe uma tendência quase automática: "Achou adenomiose? Vamos bloquear tudo!" A proposta é usar um medicamento chamado agonista de GnRH (conhecido comercialmente por nomes como Lupron, Zoladex, etc.) por 1 a 3 meses antes de transferir o embrião. A ideia é deixar o útero em "repouso absoluto", simulando uma menopausa para desinflamar a região.


Mas, na medicina, nem tudo que parece lógico funciona na prática. E, infelizmente, tratamentos que parecem lógicos vendem muito bem, mesmo quando as evidências são fracas. Vamos analisar o que os dados mais recentes dizem, focando no que interessa para você: ter um bebê saudável em casa, com o menor custo financeiro, físico e emocional possível.


A incerteza do diagnóstico: "será que é mesmo?"


Antes de falarmos do tratamento, precisamos falar do diagnóstico. Um estudo muito interessante de 2020 reuniu especialistas em ultrassom ginecológico para avaliar imagens de úteros. O resultado foi surpreendente: a concordância entre eles foi considerada "pobre". Ou seja, o que um médico chamou de adenomiose, outro disse que não era.


Isso é crucial porque muitas mulheres podem estar sendo submetidas a tratamentos longos e caros baseadas em um diagnóstico que é subjetivo e difícil de padronizar. Se o diagnóstico já é uma zona cinzenta, o tratamento "padrão ouro" deveria ser questionado com ainda mais rigor.


O mito do "útero hostil" em embriões congelados


A medicina reprodutiva mudou muito. Antigamente, fazíamos transferências a fresco, logo após a estimulação ovariana, quando os hormônios da mulher estavam nas alturas. Nesse cenário antigo, a adenomiose parecia atrapalhar muito.


Porém, hoje a maioria das clínicas trabalha com transferência de embriões congelados (FET). Nesse modelo, o corpo da mulher já "descansou" da estimulação dos ovários. Um estudo bem conduzido mostrou algo libertador: quando transferimos um único embrião de boa qualidade (euploide) em um ciclo descongelado, as taxas de nascidos vivos, gravidez clínica e aborto foram idênticas entre mulheres com e sem sinais de adenomiose no ultrassom.


Isso sugere que a adenomiose assintomática (aquela que só aparece na imagem, mas não causa dor absurda) pode não ser o vilão que imaginávamos, desde que o tratamento seja moderno (FET).


Embriões: Euploide, Mosaico e Aneuploide

O "remédio" funciona?


Digamos que você tenha adenomiose confirmada. Vale a pena tomar a injeção de bloqueio (GnRH) por meses?


Uma revisão sistemática publicada em 2025, analisando os dados mais atuais disponíveis, comparou mulheres com adenomiose que usaram o agonista de GnRH antes da transferência versus aquelas que fizeram apenas o preparo hormonal padrão.


Os resultados foram claros:

- Nascidos Vivos: Não houve diferença estatística. Usar a medicação não aumentou a chance de levar o bebê para casa.

- Gravidez Clínica: Empate técnico. Nenhuma superioridade comprovada do bloqueio prévio.

- Aborto: O uso da medicação não reduziu o risco de abortamento.


Os autores concluem que a evidência atual não demonstra superioridade do pré-tratamento com agonista de GnRH. Ou seja, adicionar essa etapa complexa ao tratamento não parece entregar o resultado prometido.


O custo da Intervenção


Aqui entra a parte que muitas vezes é esquecida na consulta médica: o custo-benefício para o paciente.


Ao prescreverem um bloqueio de 3 meses com agonista de GnRH, não estamos falando apenas do preço da medicação (que não é barata). Estamos falando de:


  • Tempo: São meses de espera. Para quem tem ansiedade reprodutiva ou idade avançada, 3 meses parecem 3 anos.

  • Efeitos Colaterais: Esses medicamentos induzem uma menopausa química. Ondas de calor (fogachos), secura vaginal, alterações de humor, irritabilidade e perda de massa sóssea (em usos prolongados) são reais.

  • Medicalização Desnecessária: Se o resultado final (ter um bebê) é o mesmo, por que submeter o corpo a mais química?


Por que ainda prescrevem tanto?


Se os dados mostram que não faz diferença, por que é tão comum?

- Inércia: É difícil mudar práticas estabelecidas. "Sempre fizemos assim" é uma frase perigosa na medicina.

- Viés de confirmação: O médico lembra daquela paciente que usou GnRH e engravidou, mas esquece das que usaram e não engravidaram (ou das que engravidaram sem usar).

- Indústria: Existe um interesse comercial na venda de medicamentos de alto custo.

- Medo: Na dúvida, tanto médico quanto paciente querem sentir que fizeram "tudo o que era possível", mesmo que esse "tudo" não tenha comprovação científica robusta.



Conclusão e próximos passos


Isso significa que o agonista de GnRH nunca deve ser usado? Não. Medicina não se faz com "nunca" nem "sempre". Mulheres com adenomiose sintomática grave (muita dor, útero muito volumoso) podem ser um grupo diferente, embora os estudos atuais muitas vezes falhem em separar esses subgrupos.


No entanto, para a paciente média de reprodução assistida, com um achado de adenomiose no ultrassom e sem sintomas graves, a ciência atual diz que não há benefício em passar por meses de menopausa forçada antes de transferir seu embrião.


Referências


1. Steinmann M, Anthon C, Kohl Schwartz AS, et al. GnRH agonist pretreatment prior to frozen embryo transfer in women with adenomyosis: a systematic review and meta-analysis. Reproductive BioMedicine Online. 2025;51(5):105075. doi:10.1016/j.rbmo.2025.105075.

2. Neal S, Morin S, Werner M, et al. Three-dimensional ultrasound diagnosis of adenomyosis is not associated with adverse pregnancy outcome following single thawed euploid blastocyst transfer: prospective cohort study. Ultrasound Obstet Gynecol. 2020;56:611-617. doi:10.1002/uog.22065.

 

Wellington Martins

SEMEAR fertilidade, Medicina Reprodutiva






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