Resultados obstétricos e perinatais após transferência de embriões em estágio de blastocisto comparativamente com clivagem: revisão sistematizada e meta-análise

Pergunta: A transferência de blastocisto é segura quanto comparada com a transferência de embriões em estágio de clivagem considerando-se os desfechos obstétricos e perinatais?

Resposta: O balanço clínico entre blastocisto e clivagem ainda não é claro, pois a evidência de que a transferência de embriões em estágio de blastocisto aumente alguns riscos obstétricos, como mortalidade perinatal ainda é de baixa qualidade.

O que se sabe: A cultura estendida de embriões até o estágio de blastocisto apresenta algumas vantagens e desvantagens teóricas. Enquanto permite a auto seleção do embrião, ela também expõe estes embriões a possíveis danos pelo ambiente artificial de cultivo. Tanto a efetividade quanto a segurança devem ser balanceados para permitir decisões baseadas em evidência na prática clínica.

Métodos: Foram incluídos 12 estudos observacionais incluindo 195.325 gestações únicas. Nenhum RCT reportou os desfechos estudados. A qualidade dos estudos incluídos foi julgada pela escala de Newcastle-Ottawa enquanto que a qualidade da evidência foi avaliada através do sistema GRADE.

Resultados principais: A transferência de blastocisto associou-se com maior risco de nascimento prematuro (<37 semanas) e de prematuros extremos (<32 semanas), de fetos grandes para a idade gestacional e mortalidade perinatal. Por outro lado, a transferência de blastocisto também associou-se à diminuição do risco de fetos pequenos para a idade gestacional e de “vanishing twins”.

Limitações: A natureza observacional dos estudos incluídos, além de algum grau de inconsistência e imprecisão nas análises contribuiu para a diminuição da nossa confiança nas estimativas.

Implicações: A dúvida clínica entre transferência de embriões em estágio de blastocisto ou clivagem permanece, pois, a evidência dos riscos associados à transferência de blastocisto ainda é de baixa qualidade. São, portanto, necessários estudos mais amplos e bem conduzidos.

Obstetrical and perinatal outcomes following blastocyst transfer compared to cleavage transfer: a systematic review and meta-analysis. Hum Reprod. 2016 Nov;31(11):2561-2569.

O objetivo foi avaliar a viabilidade de um novo protocolo de estimulação ovariana amigável e de baixo custo visando o desenvolvimento de um estudo randomizado controlado. Todas as mulheres realizando estimulação ovariana para captação de oócitos entre janeiro e fevereiro de 2016 no HC-FMRP com ≤90Kg, 18-40 anos, e com contagem de folículo antral (CFA) ≥9 foram convidadas a participar. Todas que concordaram em participar iniciaram a estimulação em D2/D3 com letrozol 7,5mg/dia VO e citrato de clomifeno 100mg/dia VO até o triggering.  No D3, as pacientes receberam uma dose única de 100mcg de corifollitropina alfa SC. Todos os oócitos e embriões foram criopreservados para transferência em um segundo tempo. Não houve nenhuma exclusão. Duas pacientes apresentaram síndrome de hiperestímulo ovariano (SHEO); um caso moderado e um severo conforme os critérios de Golan. A mediana e IQR da duração da estimulação foram de 12 dias (12-13), total de oócitos 12,0 (7,3-17,0), oócitos maduros 9,0 (5,3-14,8), taxa de fertilização de 72%, clivagem de 93%. Concluímos que os resultados deste novo protocolo de estimulação ovariana amigável e de custo reduzido foram satisfatórios.

O objetivo deste estudo foi o de realizar uma revisão da evidência existente comparando o uso de meio único ou sequencial para o cultivo de embriões até o estágio de blastocisto após fertilização in vitro (FIV).

Foi realizada uma revisão sistematizada em seis bancos de dados científicos buscando estudos controlados randomizados (RCTs) comparando as duas formas de cultivo até blastocisto. Não encontramos evidência de diferença sobre gravidez em curso (RR 0.9, CI95% 0,7-1,3, 2RCTs, 246 mulheres, I 2=0 %) ou gravidez clínica (RR = 1,0, IC95%=0,7-1,4, 1RCT, 100 mulheres). A utilização de meio único resultou, no entanto, em um maior número de blastocistos formados por oócito randomizado (distribuição relativa (DR) = +0.06, IC95% +0,01 a +0,12, 10RCTs, 7.455 oócitos, I 2 = 83%), mas não de blastocistos de melhor qualidade (DR = +0.05, IC95% -0,01 a +0,11, 5RCTs, 3.879 oócitos, I2 = 93%. Em geral, a qualidade da evidência foi classificada como sendo muito baixa.

Apesar de o uso de meio único para cultivo de blastocisto apresentar vantagens práticas e de a taxa de formação de blastocisto parecer ser maior, há no momento evidência insuficiente para recomendar qualquer uma das duas intervenções. Mais estudos bem desenhados dão ainda necessários.

Tradicionalmente, a transferência de embriões é feita usando-se o julgamento clínico para determinar o momento em que o cateter se encontra na posição correta para o posicionamento do embrião no útero. Alternativamente, a ultrassonografia pode ser usada para guiar o posicionamento do cateter. A imagem pode ser realizada durante o procedimento, requerendo para isso dois médicos e um cateter que possa ser visualizado pela ultrassonografia. Mais recentemente, foi descrita a realização da medida do comprimento uterino previamente à transferência como forma de orientação para o procedimento. As vantagens deste método incluem a redução do desconforto durante a transferência (não há necessidade de manter-se a bexiga cheia) e simplificação do tratamento e redução de custo, pois todo o procedimento pode ser feito por um médico. A meta-análise dos estudos publicados mostrou que a orientação da transferência por ultrassonografia melhora a chance de gravidez em curso (RR 1,26, IC95% 1,11-1,43, 13 estudos, 5.035 mulheres, I2=43%), e que não diferença entre a realização da ultrassonografia durante a transferência ou a medida do útero antes da mesma (RR 0,97, IC95% 0,85-1,11, 1 estudo, 1.738 mulheres). Acreditamos que a medida do comprimento uterino previamente à transferência é uma técnica mais confortável, simples e econômica do que a realização da ultrassonografia durante a transferência e que, por esta razão, esta técnica deverá ser incorporada por muitos centros nos próximos anos.

1 / 3

Please reload